um copo de Veltliner em Viena de Áustria

Para a história que vou contar, é necessário fazer uma pequena introdução. Num domingo, aquando da minha recente revisita a Viena de Áustria, a hora de almoço aproximava-se e eu, deliberadamente entregue à falta de roteiro fixo, próprio de quem viaja sem objetivos turísticos, dirigi-me a uma mulher que ia a passar na rua por onde eu deambulava, e perguntei-lhe, ou pedi-lhe, que me desse uma sugestão de um restaurante tipicamente vienense e onde os vienenses gostassem de ir almoçar. A questão foi colocada e respondida em alemão e, chegado à morada indicada pela transeunte, constatei que, de facto, se tratava de um estabelecimento que se enquadrava na perfeição nos contornos que tinha colocado à sugestão da prestável vienense que abordara.

Inexplicavelmente, e dando às crenças no destino um pouco do meu flanco, ao entrar no restaurante, e talvez por alguma alergia provocada pelo familiar ambiente, pelos pinguins masculinos e femininos que às mesas e das mesas levavam e traziam o que fosse necessário ou aquilo a que o cliente já não quisesse dar uso, decidi, nesse preciso momento, não falar alemão, mas sim inglês. Abordei em primeiro lugar um pinguim fêmea que, de forma solícita, contudo parcamente sorridente, me indicou uma mesa livre, situada entre uma família, de três gerações, e um homem sozinho, chamemos-lhe Franz, que, logo no momento da minha chegada, atenciosamente perguntou se a sua mala, colocada no banco corrido onde eu também me preparava para sentar, me incomodaria. Respondi, igualmente afável, que não e, desembaraçado de casacos e bagagem ligeira, sentei-me à minha mesa, observando aquele ambiente, afinal de contas, muito menos exótico do que eu suspeitara. A vizinha família de sete elementos era compreensivelmente ruidosa, quer as crianças em idade pré-escolar, quer os adultos no momento pré-laboral, como é costume às pessoas que trabalham de segunda a sexta-feira. À minha esquerda, a seguir ao gentil vizinho do lado, estava um casal grisalho que, em silêncio, observava o que ali se passava com a displicência de quem olha para algo em movimento que não proporciona surpresas ou fatores inesperados de qualquer ordem. À minha frente, depois do pequeno corredor por onde os pinguins deslizavam, duas estudantes universitárias bebiam cerveja e trocavam assuntos pelas mesmas palavras, ou vice-versa.

Chegou então o momento em que um dos pinguins se dirigiu à minha mesa, entregando-me, sem grandes floreados nem atenções, o menu de cabedal preto com letras douradas que identificavam o estabelecimento „Café Engländer“. Abri o menu e deparei-me com com uma versão integralmente em alemão. Folheei as três páginas, para me certificar de que não havia uma tradução em inglês algures, fechei o menu e, travando a passagem do lacónico pinguim, perguntei, em inglês e com a simpatia e com a humildade apropriadas, se teriam um menu traduzido em inglês. Foi nesse momento que o pinguim se despiu da pouco simpatia que até ali tinha tido e, num tom entre o enfadado e o impaciente, me respondeu que não, que ali só havia menus em alemão.

Durante os breves instantes que precisei para mastigar algum desconcerto e, com o olhar, procurar o meu casaco, pronto para abandoar o local, notei o nervosismo e o olhar fixo do gentil Franz ao meu lado, que a mim se dirigiu. Provavelmente prevendo, ou notando, a minha intenção de sair daquele ninho da burguesia vienense, ele desfez-se em desculpas pelo comportamento do pinguim e, diligentemente, ofereceu-se para me ajudar a escolher o que haveria de almoçar. Recorri, então, a uma fração de segundos para conjeturar se deveria sair, como decidira momentos antes, ou se, pelo contrário, e quase num gesto de gratidão pelo esforço do Franz, deveria aceitar a sua ajuda e, com ela, decidir o que iria almoçar. Optei pela segunda hipótese e ele não só me traduziu o menu na íntegra para inglês, como ainda me explicou detalhadamente o significado dos pratos mais tradicionais e ingredientes mais tipicamente austríacos. Durante a tradução, o Franz teceu ainda alguns comentários ao comportamento do pinguim, manifestando desconcerto e alguma revolta pois era cliente habitual e nunca presenciara nada de semelhante por ali. Após os devidos agradecimentos, e quando o pinguim se dirigiu novamente à minha mesa, pedi o tradicional panado de vitela com salada de batata e um copo de Veltliner, um vinho branco austríaco. Anotado o pedido, o pinguim seguiu o seu destino e o Franz voltou a sublinhar o quanto aquela situação o incomodara, pedindo inclusivamente de novo desculpas, desta vez em nome do seu povo e da sua cidade.

O meu almoço foi servido com rapidez. Talvez até três ou quatro minutos, permito-me o preciosismo, antes do tempo confortável para quem aguarda uma refeição convencionada na hora.

Enquanto eu mastigava o mediano panado de vitela e a igualmente mediana e colateral salada de batata, o incomodado Franz, aproveitando o momento em que a pinguim fêmea levantava o seu prato vazio, explicou-lhe, em alemão e obviamente sem suspeitar que eu estava a entender o que dizia, o que se passara e que fazia questão em pagar o meu copo de vinho, o que me surpreendeu e incomodou, contudo sem poder exprimi-lo pois, para todos os efeitos, eu não falava alemão. O Franz rematou ainda, sempre diplomaticamente, que acharia elegante, e até apropriado, se o vinho fosse oferecido pela casa, contudo, que essa decisão a deixava à consideração do pinguim visado ou a quem de direito.

Quando terminei o almoço, o meu defensor Franz voltou a dirigir-se a mim, explicando-me, e mentindo, que falara com a empregada e que ela decidira que o meu copo de vinho era por conta da casa, como pedido de desculpas pela conduta do colega. Eu reagi da forma mais surpreendida que me foi possível e, passados alguns instantes, o Franz despediu-se com a simpatia inicial e abandonou o estabelecimento.

Pouco confortável sem o Franz, pedi a conta ao ainda sisudo pinguim, que demorou o mesmo tempo a trazê-la que tinha demorado a trazer o panado de vitela. Quando o fez, momento por mim antecipado e ansiado para verificar se, de facto, o copo de vinho não seria cobrado e caso não fosse como o justificariam, o pinguim referiu sem demais argumentações que o Franz já pagara o meu copo de vinho. Não houve nem uma explicação porque o fez nem um pedido de desculpas da parte do pinguim. Paguei, vesti o casaco, acondicionei a bagagem às costas e abandonei as famílias, as estudantes e o casal grisalho aos seus pinguins de estimação, claramente amestrados para a eles dedicarem a sua subserviência, todavia, desprovidos de qualquer índole anfitriã.

Abandonado o local, e percorrendo as ruas sob uma morrinha novembrina, refleti alguns momentos sobre o prestável Franz. E se, inicialmente, a atitude solícita de tradutor me sensibilizou, o copo de Veltliner oferecido constituiu, passo a ingratidão, uma sombra na motivação da sua conduta. Primeiro, por ser um gesto deslocado e pouco justificado pelas circunstâncias. Segundo, por, em certa medida, ele não o ter feito por altruísmo ou espírito cívico de inter-ajuda, mas sim pelo seu país e pela sua cidade. Houve assim, e paradoxalmente, um travo nacionalista, pois Franz, em última análise, não agiu pelo estrangeiro sentado na mesa ao lado, agiu em defesa do seu país. O seu gesto não foi para comigo, mas sim para si mesmo.

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