rir dos cardos

Sempre me incomodou a facilidade com que se escreve sobre o amor, sobre o início do amor, as paixões, as mulheres e homens ideais, nos artigos das mais variadas publicações, mais ou menos, „sérias“. E também sobre o fim do amor, prevendo-o, auscultando-o e justificando-o tão laconicamente que percebemos que tais palavras mais não servem do que de pensos rápidos para a alma, simples e fáceis confortos num assunto que de ambos nada tem.

Confesso que não me atrevo a dissertar sobre o amor. Andam, sempre andaram e andarão, poetas, músicos e filósofos a tentar descreve.lo, enaltecendo-o, metaforizando-o, colorindo-o, cantando-o, e todas essas formas, discutivelmente acuradas, fornecem-nos, pelo menos, testemunhos da beleza do espírito humano.

A minha reflexão de hoje prende-se com uma congestão de sentimentos que creio ameaçar a humanidade. Da mesma forma que uma digestão requer o seu tempo, também os sentimentos mais profundos e, arrisco, os mais válidos, requerem tempo. Muito mais do que descrições ou enaltecimento, os sentimentos humanos constituem elementos comparáveis a uma árvore, a uma planta. Algo faz germinar a semente, e do germe evoluirá uma plântula, e dela uma planta que se desenvolverá do entrançado que a fisiologia elabora com o ‚passar do tempo‘. Serve a prosaica comparação para salientar e valorizar este fator mágico e misterioso a que se chamou o ‚passar do tempo‘, já que, e subscrevo as palavras de quem o descobriu, o tempo não existe, ou antes, não passa de uma ilusão, por muito convincente que se nos apresente, o que se deve ao fato de ‚tempo‘ ser diferente de ‚passar do tempo‘. É com tranquilidade e aquiescência que observo expressões como ‚o tempo das cerejas‘ ou ’naquele tempo‘ ou mesmo ‚já era tempo‘, pois existe uma pontualidade em todas essas frases, que se remetem a um determinado momento da observação. Isto leva-nos a um conceito que pode parecer absurdo, de algo que passa sem existir, algo que se dá, todavia não existe, algo que nos orienta e que não existe. Trata-se, desafio-vos, de um fascinante, e exigente, exercício de abstração e de revalidação de grande parte daquilo que vivemos, daquilo que nos rodeia. Daqui surge a ‚minha‘ teoria da relatividade do amor, diretamente relacionada com a teoria da relatividade do tempo.

Se nos concentrarmos em elementos pontuais, o amor surge como uma intermitência, composta pelo chamados momentos ‚bons‘. momentos ‚maus‘ e momentos de ’neutralidade‘. Nessa perspetiva, entre rosas, cardos e caules, passo novamente a metáfora botânica, o amor definir-se-ia com alguma simplicidade. Mais, seria mesmo possível, como um alquimista, proceder a quantificações, equilíbrios e fórmulas que nos revelariam a receita do amor. Todos sabemos, no entanto, que não é assim que o sentimento se processa, já que a sua base é o ‚passar do tempo‘, e não o tempo como momento, este encerrado em noções como prazer, dor, alegria, angústia, etc. E, contrariando a canção, o amor não é o momento em que eu me dou, em que te dás, e o amor também não é o tempo mas sim o ‚passar do tempo‘ como entidade magnânima e autossuficiente, não como sequência de momentos. Para ilustrar melhor o que escrevo, um corpo, apesar de ser um aglomerado de átomos, não é observado como tal, possui uma identidade própria, porque se define como um ente e não como um conjunto de partículas. Com isto, pretendo afirmar que, ao almejar o amor, não devemos procurar partícula, momentos de prazer, fragmentos com o qual o confundimos. O amor, repito, forma-se de ‚passar do tempo‘ e, para tal, é necessário que continuemos a respeitar esse processo e dar-lhe, redundantemente, tempo. Esta tarefa encontra-se condicionada por vários fatores. O primeiro, e fundamental, assenta na velocidade que tudo à nossa volta adquiriu, um frenesim de produtividade, de busca e de compensações, pois os seres humanos, apesar de serem recipientes a transbordar andam a deixar-se convencer pelo sistema de que são recipientes vazios e que a única solução é a sofreguidão consumista que constitui, assim, o pior inimigo do amor, ou o seu maior impedimento, pois ele não se deixa fabricar nem acelerar, surge espontaneamente.

O segundo fator, assenta no sobre-protecionismo do ser humano, impedindo-o, retirando-lhe mesmo, o direito de sentir dor. Sem abordagens abordagens sado-masoquistas – que encaixariam nos referidos momentos de dor ou de prazer – permito-me a convidar a atentar na importância da dor, não como algo a evitar, mas como uma possibilidade de refletir, como uma dádiva do espírito humano, permitindo-nos sentir, identificar e processar os desencadeados da dor. Uma vez efetuado esse trabalho, e regressando às metáforas botânicas, permitiremo-nos sorrir, rir dos cardos.

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