o paradoxo da posse da terra

Existe uma característica humana que induz os indivíduos a sentirem-se parte de determinado grupo, ou clã. A antiga ideia do animal social, irrefutável, explica dinâmicas e agrupamentos desde as origens da humanidade.

Esses grupos tiveram, contudo, desde cedo, condicionantes de ordem separatista que levaram os elementos de determinado clã a observado o(s) de outro(s) como, mais do que potenciais, emergentes ameaças.

Recuando aos berços dos hominídeos, é simples imaginar que os clãs externos constituíssem uma ameaça, já que usurpariam ou simplesmente consumiriam os alimentos parcos na altura. Mesmo com a sedentarização das primeiras populações, esta dinâmica manteve-se já que a prosperidade e crescimento de determinada sociedade significaria, invariavelmente, limitações e dificuldades da(s) vizinha(s).

Nesta lógica encaixam dois conceitos que as religiões, todas elas, tentaram e tentam mitigar. o egoísmo e a soberba. Estas duas características refletem um restício animal, irracional, um instinto tão antigo e enraizado como o próprio sistema nervoso central.

É o paradigma tribal que continua a limitar a humanidades impedi-la de compreender o verdadeiro significado do „isto é tudo nosso“ ou de „nós somos todos isto“. A tecnologia, os cientistas, os satélites e a cada vez maior velocidade de passagem de informação tem vindo a „escarrapachar-nos“ de que estamos juntos nisto. Nisto, neste planeta, neste infinitamente pequeno fragmento de cosmos que habitamos e que designámos por planeta Terra. Chegou-nos o discernimento, a interrogação, a investigação e o estudo para concluirmos que estamos encerrados num território limitado. A Terra que habitamos, ganhou forma e, com ela, limites e limitações, essas partilhadas por todos nós seres humanos, e seres vivos. Será então razoável, inteligente ou mesmo aceitável, que continuemos a definir-nos a nível individual? A nível de clã? De bairro? De clube? De região? De país e de outras construções humanas, baseadas no referido paradigma tribal?

Chegou, e não chegou hoje, o momento de celebrar o grande paradoxo da humanidade: aprendemos a lutar pela Terra quando acreditávamos que ela era infinita. Aprendamos a partilha-la, „agora“ que sabemos dos seus limites. Continuar a pensar, a agir e a educar como temos feito terá, garantidamente, consequências apocalípticas para a breve história humana.

Respeitemos as nossas paisagens, os nossos sabores, os nossos cheiros, cores, climas. Sintamo-nos até em casa, se estes fatores de feição se conjugarem. No entanto, entendamos que o mesmo farão todos os outros seres humanos, e essa premissa não pode continuar a ser determinante ou condicionante das nossas vidas. A base, aquilo de que devemos cuidar, é o sentimento de que viajamos juntos, espaço afora, nesta bola azul de órbitas matemáticas e de futuro incerto, se a humanidade de fragmentos continuar a acreditar fazer parte. Nós somos os outros.

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