no país das maravilhas – o coelho branco no dia do pai

Escolheu-se este dia para iniciar esta viagem ao „país das maravilhas“, esta Alemanha tão bem guardada nas quimeras de quem dela está longe, nas reflexões de quem nela vive, nas ilusões de quem nela escolheu viver, nas convicções de quem a questiona e nas certezas de quem nela encontra consolo para a sua fragilidade. O dia do pai é também o dia da terra natal. A língua é materna, a terra é paterna.

Vaterland significa tanto como pátria, ou, levando a tradução à letra e ao sentido, terra paternal, terra do pai. E se a epistemologia de pátria a encosta a patriarcado, também Vaterland se encosta a noções igualmente sexistas no idioma germânico. Enche-se, portanto, também por estas bandas, e de uma vezada, este dia do pai de uma carga tão poética como chauvinista.

Assuma-se então, hoje e para estas crónicas, este dia do pai como a ponte entre a terra do meu pai que é Portugal, e a terra de outros pais que é a Alemanha, onde estou. Mais do que a ponte, solta-se o coelho branco que convido a perseguir a este „país das maravilhas“. O coelho branco que nos ensinará caminhos, que nos colocará perante ilusões, perante confrontos e diversas dimensões de absurdo.

E se o papel do pai no momento fecundo da fertilização, por enquanto, de imprescindível se afirma, há que reconhecer que é também nesse instante que o adjetivo perece – já alguém disse, é necessário uma aldeia inteira para se educar uma criança. Se à biologia nos resumimos, celebre-se então, o dia do espermatozóide.

Creio que fará sentido abrir as portas deste „dia do pai“ a todos nós, homens e mulheres. Porque todos somos pais, porque todos contribuímos, em diferentes graus como em tudo o que envolve a dedicação humana, para formarmos pessoas. Valemo-nos da história, de deuses e de filosofias, valemo-nos de convicções, regras e ternuras. Valemo-nos de todos os mundos, reais e imaginários. Transbordemos a função de pai à singularização ortográfica da palavras pais, e aceitemos que também as mulheres são pais, e que géneros e de noções estanques da qualidade humana apenas nos limitam e condicionam.

Esta ponte, este coelho branco, serve, assim, de introdução ao que nas seguintes crónicas se tratará e que outro propósito não terá além de demonstrar e postular que os países apenas fazem sentido se das suas paisagens e climas nos valermos, pois foi neles que o bicho homem cresceu, multiplicou e multifacetou.

Os países não existem, fomos nós que os inventámos.

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