do adultério feminino à ameaça do clã

Poucas palavras terão, no nosso idioma, uma carga moral, e moralizadora, tão forte quanto „adúltera“; não adultério, nem adúltero, refiro-me ao termo „adúltera“. Neste termo cabem noções bem mais ameaçadoras do que por exemplo no vernáculo „puta“. „Puta“ encontra-se embebida na condescendência, simultaneamente púdica e agressiva, das palavras que encontraram inúmeras nuances e aplicações no nosso quotidiano. Ainda que nos concentremos no significado original da palavra, esta descreve uma atividade não assumida mas reconhecida pelas sociedades patriarcais. Refira-se que, ao contrário da esmagadora maioria dos substantivos em português, a transposição de género desta palavra resulta numa total perda de significado da mesma, obtendo-se uma palavra que, no masculino, está longe de todas as cargas da mesma no feminino: „puta“ não é o feminino de „puto“, nem „puto“ é o masculino de „puta“. Aliás, „puta“ não tem, em português, uma variante masculina que a acompanhe tanto em significado como em conotações (como, por exemplo, „amiga“ e „amigo“). Não existe uma forma masculina de „puta“ porque tal, na nossa sociedade e modelo moral, simplesmente não faz sentido.se tentarmos encontrar um termo meramente descritivo equiparável à atividade de puta, deparam-nos com os estrangeirismos „gigolô“ ou „escort“ ou, rebuscadamente e praticamente em desuso „prostituto“.Nenhuma destas possui, porém, uma carga tão moralmente carregada e abjecta como a feminina „puta“.

Regressemos ao nosso termo de discussão „adúltera“. Apesar de, em termos etimológicos e gramaticais, uma adúltera não ser uma puta, na verdade, uma mulher que cometa adultério garante o „direito“ à sociedade e meio envolventes lhe chamar „puta“. O insulto „justificado“ centra-se num ponto de vista masculino, e não feminino, pois é da ameaça ao homem que tal ligação entre os dois termos, „adúltera“ e „puta“, é celebrada. Se for um homem quem comete adultério, existe uma compreensão e aceitação tácitas, frequentemente obtendo mesmo contornos de elogio, ou de característica invejável, diretamente ligados a noções de virilidade e afins.

Qual a origem então de tal conotação negativa e abjecta que apenas existe no caso de ser a mulher a cometer adultério? Será religiosa? Talvez, todavia, a religião, as religiões, não são a origem das coisas. Pelo contrário, antes delas, houve mulheres e homens aprendendo a estruturar, organizar e perpetuar as formas de convivência, os modelos sociais e, em última análise, a subsistência da espécie. Inventaram-se deuses, surgiram religiões e, mastigando os medos humanos, delinearam-se aspetos que até hoje se mantiveram, ainda que tenham deixado de ter o enquadramento biológico e antropológico dos primórdios da humanidade e das sociedades.

Concentremo-nos brevemente na vertente biológica. A exclusividade feminina, a monogamia unilateral a que a mulher se viu obrigada, constituiu, na minha opinião, um método de evitar a consanguinidade. Ou seja, a referida exclusividade feminina garantia a fecundação de uma mulher por um só homem, o que assegurava a identificação da prole pelos laços de sangue. Recordemos que os apelidos são transmitidos, na generalidade, pelo progenitor. Uma „liberdade fecundativa“ das mulheres, e passo a ausência de romantismo nesta abordagem meramente biológica, significaria uma quantidade incontrolável de meios-irmãos.

No entanto, e aqui gostaria de vincar a essência desta dissertação, nós já não nos encontramos nos primórdios da humanidade nem da organização das estruturas sociais. Em Portugal, em 2017, não faz qualquer sentido continuar a basear mentalidades e sentenças em pressupostos arcaicos de consanguinidade e nos medos das ameaças aos clãs patriarcais. Seria urgente, e mesmo inadiável, equiparar homens e mulheres no ato da fecundação.

Deliberadamente, não faço abordagens de carácter emocional pois estou convencido de que os mecanismos do amor assentam na centelha humana que é comum a todos os elementos da espécie, seja qual for a categorização de género com que cada qual se identificar.

Os tempos em que vivemos, e em que o pluralismo, e até a democracia, voltam a estar ameaçados, devem servis como impulsos de revitalização da consciência de que a liberdade não é um bem adquirido, de que, esgotado o diálogo, ou antes de passar a um nível mais elaborado do mesmo, é necessário reivindicar, lutar e dizer NÃO com clareza e sem margem para dúvidas. Um diálogo construtivo e verdadeiramente regenerador só foi e só será possível uma vez quebradas as viciadas estruturas existentes.

Eu não sou mulher, contudo, não tenho que o ser para expressar e apoiar uma causa que beneficiará toda a sociedade. Não se trata sequer de comiseração nem de achar que „elas“ sozinhas não são capazes. Estou convicto de que o são, se elas se unirem, da mesma forma que todos os que acreditam na liberdade se devem unir, sem medo de destroços sem nos vergarmos a quem nos tenta convencer de que um conflito originará sempre e apenas destruição e sofrimento. Não é verdade. Lutemos por sermos livres e por, finalmente, se compreender que nós somos os outros.

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