Austin, Texas – outubro de 2016

A viagem de Nova Iorque para Austin (Texas) viria a revelar-se numa sublimação da ambiência de um continente embarcado em si próprio. A ilha americana é constituída por arquipélagos mais ou menos isolados do resto do mundo, todas as sub-ilhas, por sua vez, mantendo a estóica disciplina da abnegação dos continentes. Em todas as ilhas do mundo tal se manifesta e observa. Aqui, porém, as sub-ilhas não se encontram rodeadas por água, mas por terra, agreste, vasta, de ninguém.

Austin é uma dessas ilhas. Uma cidade-mosaico da história americana. Casas de ripas de madeira com alpendres aliviados da caloraça através de ventoinhas cansadas e resignadas à função que os omnipresentes ares condicionados fizeram esquecer. Contudo, habituadas que estão de ali se verem penduradas, continuam a girar, a girar, justificada ou não a sua obsoleta função.

Os arranha-céus deveriam antes ser apelidados de cócegas-céus, a versão poupada das variadas sky lines que em outras ilhas, como Nova Iorque, esmagam as nucas humanas.

Em Austin, é por aqui que arrastamos o passo sob 37 º C e 70% de humidade relativa, a sexta avenida evoluiu para uma pequena e alongada arena onde variadas obscenidades da virtude humana se mostram quando o sol se põe. O grotesco das parcas roupas, também estas resignadas às carnes alimentadas e, por sua vez, já de tal forma cobertas de adiposidades que da função do vestuário se despediram. Pelo menos parcialmente, que a nudez não pode, nem deve, ser vista. A nudez do mamilo feminino, a nudez do pénis, a nudez do rabiosque feminino, esse que agora anda condenado às ondulações que são a memória de seduções tão enraizadas que dos passos fazem escravos e sobre eles bamboleiam a esforçada vontade de atractividade.

Depois há aqueles que de si mesmos se despediram, condenando-se a somente arrastar os próprios corpos. Os espíritos, amachucados, rasgados, emporcalhados, enxovalhados, mal-amados, retorcem-se no interior dos corpos. Lembram caudas de lagartixas amputadas, retorcendo-se, cada vez mais entorpecidas, no interior destas pessoas que já mal o são. Se às lagartixas a cauda concede apoio e equilíbrio, às pessoas foi-lhes dado o espírito e ai de quem se lho deixar amputar. As roupas em frangalhos, o cabelo abandonado a si mesmo e a tudo o que decidir povoá-lo, o cheiro fétido e o olhar oblíquo, resvalado, circular, dos loucos de Austin, dessa multidão acrescentada à vida de quem passa, acrescentada à vida que passa.

Acrescentadas as horas, a arena, que de circo se compõe, emana finalmente o seu esplendor lynchiano. Junto às paredes dos saloons arrastam-se os loucos de que se falou, do medo não perderam a noção. Na berma da estrada, uma jovem, que pouco mais terá que vinte anos, é abanada pelas duas amigas que procuram ressuscita-la, mais não alcançando, contudo, que jactos de vómito esbranquiçado que a boca da jovem ejacula. Transformada permanece a jovem-pénis, masturbada pelas duas amigas saciadas. No meio da rua, um sexagenário-sardão, de pele mastigada pelo sol texano, dança ao som das labaredas de música country que cada bar e saloon lança para a rua, as portas e janelas escancaradas, incendiando as multidões que enchem aquela sexta avenida dos horrores. O homem-sardão veste um biquini azul petróleo, redundância com que decidi recompensa-lo; veste ainda uma bandeira americana à laia de capa, um chapéu de cowboy nas mesmas cores e padrões, botas de cabedal bicudas, que terão sido brancas muitas noites atrás, e óculos escuros, apesar da lua cheia, ou talvez devido a ela, debruados com estrelas prateadas. O homem-sardão dança uma coreografia de corvo coxo, talvez desejando ter asas para o levarem dali para fora. Mas não, as pernas são de sardão e, apesar de velozes, do chão não se desprendem.

O resto são aqueles que se esqueceram do que os ali levou e caminham em círculos vagarosos, seduzindo, deixando-se seduzir, acreditando que seduzem, desejando serem seduzidos.

No dia seguinte, porém, a rua engomada e dobrada de lavado não deixaria sequer suspeitar da arena que fora horas antes, não fossem os corpos alienados daqueles que já durante a noite tinham tentado procurar-se, os dos frangalhos nos olhos e olhares errantes. Uma figura andrógina cambaleia sob o sol escaldante do meio-dia, cigarro apagado na mão e um olhar transparente e revoltado. Não se sabe ao que veio, não se sabe do que veio, nem de onde, como se a sua única função fosse aquela mesma de se condenar a si própria, a si mesma.

Quem depois desce a avenida do congresso, em direção ao rio Colorado, chega à ponte dos morcegos. Ao por-do-sol, depois de garças, patos, corvos e pombos escoltarem o ar brilhante do entardecer, escuta-se sons estranhos que se julgaria inaudíveis, paradoxo próprio das horas mágicas de troca de luzes astrais sobre a Terra. Debruçados na ponte, e nos barcos e canoas que flutuam no rio, atiramos os olhos às velozes asas dos morcegos que, em bandos, cruzam o ar emendado pelos pássaros que os observam, igualmente atónitos, pousados nas árvores circundantes. Os reflexos na água do rio reverberam os reflexos dos restos de dia nos arranha-céus, dialogando a água que escorre com a noite que desce. À escuta, longínquo vai o bando de morcegos, a passarada penteia as penas e esquece-se de existir até à manhã seguinte, quando a alvorada a lembrar de que tem asas, bicos e rumos.

Adiados andam os tempos da consciência humana. A três semanas das eleições presidenciais norte-americanas, a campanha parece ter lugar noutro planeta: Austin nem se interessa, nem tenciona votar. A despolitização é de tal forma absurdamente difundida que os jogos de futebol americano juntam multidões, enquanto os debates políticos chuviscam, solitários, em ecrãs despojados de olhares e de atenções dotadas do mínimo de seriedade. Os Eagles marcam, os adeptos rejubilam, decidindo manter as cervejas na mão, mas não o futuro da nação. Esse é decidido por quem do povo mastigou a cidadania, transformando-o numa massa politicamente invertebrada, povoando arenas e pontes habitadas por morcegos. E os morcegos só evitam a luz por a natureza disso os ter convencido, não por se lhe terem tapado os olhos.

Schreibe einen Kommentar

Deine E-Mail-Adresse wird nicht veröffentlicht. Erforderliche Felder sind mit * markiert.